Relate sua Viagem!
Nome: Rodrigo Phanardzis
Ancora da Luz (rodrigoluz@yahoo.com)
Cidade/Estado: Nova
Friburgo - RJ
Local Visitado: Diversos
Data Viagem: Variadas
Relatório:
Os
Túneis de Murineli
A história
até hoje nos faz surpresas. A cada década que se passa, sempre
há algo a ser acrescentado ao patrimônio cultural da humanidade.
Um dia pode ser que alguns dos nossos shoppings, nossos apartamentos, ou
as nossas rodovias asfaltadas venham a ser tombadas para as futuras gerações
poderem lembrar do passado frenético dos seus ancestrais. Só
que no momento não
damos conta disso. Nossa
sociedade simplesmente vai detonando tudo conforme suas necessidades imediatas,
perdendo assim sua identidade de modo que poucos são aqueles que
conseguem se situar no tempo e no espaço.
Dia 23/08,
quinta-feira, resolvi fazer um passeio ao mesmo tempo histórico
e ecológico. Não tive pressa para acordar, e às 9:50
tomei o ônibus que vai de Friburgo para Dona Mariana, que é
um arraial pertencente à zona rural de Sumidouro. O céu estava
claro e resolvi sair de camiseta e bermuda naquela atípica manhã
de inverno. Não levei muchila e menos ainda um agasalho porque planejei
retornar na mesma data.
A viagem
de ônibus dura cerca de uma hora e é feita por uma linha municipal
porque Mariana encontra-se justamente na divisa entre Friburgo e Sumidouro.
Após deixar o bairro São Geraldo, a estrada é quase
toda de terra, embora tenha alguns trechos pavimentados. No caminho há
sossegadas propriedades, pastos, plantações de hortaliças,
eucaliptos e uns pedaços de mata isolados. A maioria dos passageiros
desce no caminho, mas há aqueles que embarcam no meio da viagem,
como se o centro da cidade tivesse pouca influência na vida cotidiana
deles.
Por ironia
da história, a ponto final do ônibus fica em frente à
esquecida estação ferroviária de Mariana. Não
se vê mais os trilhos e a pintura do imóvel vai aos poucos
sendo dissolvida pelo tempo. O trem, que até os anos 60 parava ali
todos os dias, já foi o principal meio de transporte de muitas pessoas
nas serras fluminenses levando também todos os tipos de carga representando
assim o progresso de uma época que não parecia Ter fim.
A estrada
de ferro de Mariana era um 'galho' da antiga Leopoldina. Começava
em Porto Novo, no Vale do Paraíba, passava em diversas estações
serranas como Sumidouro, Murineli e Mariana, terminando em Nova Friburgo
quando então os trilhos se uniam aos do ramal principal que vinha
de Cantagalo e seguia para o Rio de Janeiro. Inicialmente, o combustível
das locomotivas era o vapor e a lenha, o que foi responsável por
grande parte dos desmatamentos ocorridos na região. Durante as construções
da ferrovia, os escravos trabalhavam o dia inteiro e a engenharia não
poupou esforços para concluir a obra, pois arrojadamente foram abertos
três túneis entre Mariana e Murineli. Mesmo com a oposição
dos poderosos fazendeiros locais, nada impediu que o governo realizasse
aquele mega projeto, o qual acabou durando menos de 100 anos. Tornou-se
assim algo inoportuno porque quando os trabalhos estavam conclusos, a cafeeicultura
no Vale do Paraíba já entrava em decadência devido
ao esgotamento do solo e a atividade já se deslocava para a região
das 'terras roxas' na província de São Paulo em busca de
melhores terras.
Na década
de 60, o governo mulitar desativou a estrada de ferro procurando aproveitar
seus trilhos em outras obras faraônicas que vieram para consumir
mais um boado das riquezas desta nação. A Leopoldina nessa
época já causava um enorme prejuízo em decorrência
de uma má administração que estimulava a morosidade
do funcionalismo (para cada dia de reparo, por exemplo, os homens ganhavam
um dinheirinho extra). Houve sem dúvida o lobbie da indústria
automobilística que exigiu a construção de rodovias
junto com o abandono das ferrovias, pois 'governar era construir estradas'.
E por causa de todos esses fatores, o mato e as
pastagens engoliram aquilo
que um dia teve seu valor, exceto entre Murineli e Mariana que continuou
sendo percorrido por jovens amantes da natureza em busca de aventuras.
Curioso
para conhecer os túneis, fui deixando Mariana para trás acompanhando
sempre o roteiro da antiga linha. Até um certo momento, o caminho
se confunde com uma estrada de carros utilizada por moradores. Há
bifurcações, mas é possível encontrar alguém
no caminho para pedir informações. Às vezes, é
preciso contar com a própria intuição e descartar
as subidas ou descidas íngremes, visto que o trem costumava não
roper as vertentes mesmo que pra isso precisasse dar inúmeras voltas
ou passar por túneis. A vista é cinematrográfica e
por alguns instantes aquela paisagem me lembrava as montanhas da Minas
Gerais de minha infância, arrebatando-me para a Serra da Mantiqueira.
Sobre
aquele mar de morros, num determinado momento pode contemplar de longe
a cachoeira "Conde D' Eu", considerada a maior do estado do Rio de Janeiro
com 127 metros de queda. Conhecida pelo povo de Mariana como a 'Cascata',
para chegar até ela a pé é preciso ter bastante disposição
física pra volta, pois a subida é de matar. No entanto, o
sacrifício compensa, pois se trata de uma beleza sem palavras para
definir. Há uma matinha em volta dela e que se mantém sempre
verde graças ao vapor d'água que se espalha devido ao impacto
da queda. O banho não é recomendável por causa da
correnteza que aumenta mais ainda sua força no verão.
Fui prosseguindo
até chegar na última casa. Precisei então pedir mais
informações para saber onde começaria a trilha. Tive
que transpor uma cerca, pois recentemente alguém havia fechado o
acesso, e continuei sempre em frente. Vi logo em seguida quatro
bois fujões que ao
perceberem a minha presença correram disparadamente. Tinha um pouco
de mata no percurso, mas o ambiente estava bem seco tornando as árvores
sem folhas e quase mortas. Alguns pássaros me surpreendiam quando
pousavam nos galhos ou levantavam vôo.
Durante
boa parte da trilha pode-se ver lá em baixo a imponente Fazenda
Santa Cruz. Erguida na época da escravidão, sua centenária
sede tem dois andares e conta com inúmeros quartos. Seus antigos
donos foram pessoas influentes na região, que mesmo depois da abolição
em 1888, continuaram utilizando um trabalho opressor em que o empregado,
após se endividar, trocava a sua força de trabalho por comida
e moradia. Havia feitores, talvez castigos físicos, e ninguém
de fora podia penetrar nos limites da gleba sem a autorização
do administrador. Muitos viajantes a cavalo, no entanto, se hospedaram
ali para pernoitar, o que era comum naqueles tempos em que as distâncias
pareciam ser maiores. Devo Ter ficado mais de dez minutos sentado sobre
um muro de pedra observando a cena da fazenda enquanto o sol queimava aminha
pele.
Próxima
à entrada do primeiro túnel, há uma cachoeirinha que
me pareceu um chuveiro natural. Não resisti e me molhei nela para
aliviar o calor e beber um pouco d'água. Foi um refrigério
porque eu já não aguentava mais e costumo não me sentir
bem em lugares de clima muito seco. Depois me sequei ao sol e entrei no
primeiro túnel, o mais extenso de todos os três.
Dá
para atravessar o túnel sem lanterna, mas não é possível
por alguns momentos ver a luz no seu fim por causa de uma curva. Fui bem
vagarosamente para não tropeçar em nenhuma pedra e não
vou negar que senti um pouco de medo. Reconheço que se estivesse
previnido para enfrentar a escuridão, certamente a travessia teria
sido mais interessante, pois eu poderia observar mais detalhes.
No outro
lado, encontrei novamente os quatro boizinhos que acabaram fazendo o passeio
junto comugo até a próxima casa. De fato, os animais não
tinham pra onde correr, pois não podiam subir nenhum barranco e
menos ainda despencarem lá de cima. Sob um outro ângulo, pude
ver novamente a Fazenda Santa Cruz olhando-a de fundos. Junto havia alguns
pés de café plantado no morro além de outras culturas
agrícolas.
Aproximando
da cerca, os bois pararam e ficaram quietos me observando. Temi que um
deles resolvesse me enfrentar, maa felizmente nada disso aconteceu e fui
calmamente me aproximando do bicho. Induzi-os a fazer meia volta enquanto
eu transitava por apenas um lado da trilha, que exatamente neste ponto,
se alargava. Como a trunqueira estava dura para ser aberta, passei
por baixo dos arames, quase
que me arrastando pelo chão.
O caminho
continua, mas passa por um pequeno trecho bem fechado pelo mato. Em compensação,
pude colher bastantes moranguinhos silvestres. Não estavam muito
doces, exceto alguns mais maduros e maiores. Geralmente essas frutas servem
para alimentar os pássaros e não têm nenhum proveito
comercial. A flor é branca e é preciso tomar cuidado com
os espinhos para não levar alguns arranhões. Se minha casa
tivesse algum jardim, talvez eu plantasse alguma muda e começaria
a cultivar para vender.
O segundo
túnel estava tomado pelas águas. Por causa disso, muitos
preferem passar por cima, subindo o morro. Preferi atravessar o túnel
metendo meu tênis na água. Rapidamente eu já estava
quase totalmente submerso e só não resolvi nadar porque não
queria molhar a camisa e a carteira, as quais carreguei na mão.
A temperatura da água lá dentro estava bem fria. Não
me arrependi.
Depois
só peguei caminho limpo quando saí do túnel. Vi pela
última vez a paisagem da fazenda até chegar no terceiro e
último túnel, o menos extenso. Daí pra frente não
andei quase nada até a linha coincidir com uma estrada de terra.
As casas começaram a aparecer, bem como a rodovia estadual que liga
Friburgo á Além Paraíba, passando por Sumidouro e
Carmo.
Aproveitei
a primeira oportunidade para pedir água a um morador. Fiquei admirado
com a cultura daquele humilde homem agricultor que me ensinou muitas coisas
sobre a história da região, a qual certamente ele não
viu nos livros e menos ainda na escola. Através dele fiquei sabendo
que no passado houve uma imigração de italianos para Sumidouro,
mas que se dispersou. Ouvi
detalhes sobre como era
o funcionamento da antiga ferrovia e a riqueza das fazendas. Ele também
reclamou bastante das consequências para a agricultura causada pelo
plano real, que desvalorizou a produção.
Rapidamente
eu já estava passando pela estação de Murineli e comi
um pão com mortadela na primeira mercearia. Encerrei a trilha, mas
não o passeio. Eram 15:30, e como eu não queria aguardar
o ônibus passar só às 19 horas, segui por uma estrada
de terra até a encantadora cidade de Duas Barras, onde cheguei pouco
depois de ter sido cantada a Ave Maria. Não me cansei tanto nesta
etapa que acrescentei porque são poucas as subidas indo pra lá
e o céu já estava encoberto. Encontra-se no caminho uns poucos
pedaços de mata nativa e no finalzinho é necessário
descer uma serra da qual pode-se ver a histórica Fazenda Conceição
do Pinheiro, que pertenceu ao Barão de Aquino e hoje é grande
produtora leiteira regional.
Em Duas
Barras, definitivamente acabei a caminhada e já me sentia cansado.
Tomei um suco de laranja e após passar brevemente pelo centro da
cidade, cujo conjunto arquitetõnico é tombado, passei na
misteriosa fonte d'água. Ali pedi a um senhor que me desse duas
de suas garrafas PETs para que eu levasse alguns litros pra casa. Segundo
ele, aquela nascente, além de medicinal, atrai o viajante novamente
para Duas Barras, seja por motivo de casamento ou de trabalho. Bem, de
qualquer maneira, eu pretendo retornar naquele lugar para fazer outras
caminhadas e possíveis relatos. Inclusive estudar a história
da colonização e de alguns imóveis.
Dicas
Para
quem nunca fez este passeio, sugiro que comece por Murineli e não
por Mariana. Há menos bifurcações até chegar
na trilha no sentido contrário ao que eu fiz, pois até Mariana
é só ir subindo e usar a intuição.
A cachoeira
Conde D'Eu merece ser visitada, principalmente pelos fluminenses. Porém,
para o roteiro ser concluído no mesmo dia sem se tornar cansativo,
o melhor é fazer a trilha dos túneis saindo de Murineli,
e quando chegar em Mariana, voltar pela
estrada que passa pela cachoeira
que termina na rodovia Friburgo - Além Paraíba. Não
é indicado fazer o roteiro de moto ou de bicicleta, embora algumas
pessoas consigam.
Infelizmente
não há pousadas em Mariana ou Murineli. O jeito é
sair não muito tarde de Friburgo, ou se hospedar em Duas Barras
onde há duas pousadas simples (uma boa opção pra quem
vier de carro).
Como
Chegar
Pra chegar
em Mariana há diversos caminhos. Um deles é passar pelo bairro
friburguense de São Geraldo (logo depois de Duas Pedras) de onde
sai uma estrada de terra. De ônibus, a empresa FAOL tem seus poucos
horários que podem ser consultados pelo telefone (24) 2527-1014.
Mas fique atento porque o ônibus segue com o destino 'Rio Grande
de Cima' e não Mariana.
Já
Murineli está bem perto do asfalto da rodovia estadual que vai de
Friburgo pra Além Paraíba, que é alcançada
pelo bairro Riograndina. A viação Natividade também
tem seus horários saindo pra Além Paraíba a partir
da Rodoviária Norte e cobra valores fracionados de acordo com o
trecho percorrido de modo que você só pagará até
Murineli ou Sumidouro.
O caminho
convencional até Duas Barras pra quem vem de Friburgo ou do Rio,
é pela rodovia RJ-116, passando por Bom Jardim e desviando à
esquerda num trevo logo depois. Há ônibus e vans saindo de
Friburgo, mas não compensa ficar hospedado lá sem estar de
carro. A distância de Duas Barras até Murineli é de
apenas 14 quilômetros pela estrada de terra. Não há
linhas de ônibus saindo do Rio pra lá, sendo necessária
uma baldeação em Friburgo ou Bom Jardim.
S.O.S.
Ouvi
um comentário de que o prefeito de Sumidouro, sr. Juarez, quer abrir
uma estrada de automóveis passando pelos Três Túneis.
O objetivo é que os caminhões possam levar a produção
agrícola do município até o depósito do CEASA
em Conquista na Friburgo - Teresópolis de uma forma 'mais prática'.
Isso pode implicar na destruição dos túneis e no fim
do ecoturismo na região, sem contar os possíveis danos ao
meio ambiente e ao patrimônio histórico. Logo, convoco todos
a exigirem o tombamento desta trilha perante o governo federal, pois a
antiga linha férrea ainda pertence à União apesar
de não ter mais os trilhos. Existem outras estradas que podem ser
aproveitadas sem gerar problemas e que pode sair bem mais barata se for
asfaltada. Tal prefeito deveria se preocupar mais com o reflorestamento
das nascentes, pois sua cidade já enfrenta problemas graves de abastecimento,
sendo que
nem todos podem mais tomar
água direto da nascente. O município hoje utiliza as águas
poluídas do Paquequer e a agricultura também está
sendo prejudicada.
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